MENINO 23

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É O PREMIADO CINEASTA BRASILEIRO BELISÁRIO FRANCA.

A primeira vez que encontrei Seu Aluizio Silva para filmar foi em agosto de 2011.

Ele tinha então 89 anos de idade, 80 anos vividos na cidade de Capina de Monte Alegre no interior de São Paulo. Seu Aluizio foi um dos 50 meninos órfãos e negros que foram retirados em 1933, do Orfanato Romão Duarte no Rio de Janeiro, para a Fazenda Santa Albertina na região de Paranapanema. A fazenda pertencia a uma família que tinha membros na cúpula Integralista e simpatizantes ao nazismo que florescia no Brasil daquela época. Esse grupo de meninos trabalhou em regime análogo à escravidão – sem direito à educação nem salário , sujeitos á castigos físicos – até 1942, quando foram liberados  e , na prática , expulsos da propriedade, sem dispor de recursos materiais e após anos de pouquíssima interação social com as pequenas cidades vizinhas.

Na fazenda cada um foi numerado e daí para frente chamado por seu número. Seu Aluizio era o 23, personagem principal do documentário Menino 23. Ele sobreviveu a duras penas sem nunca ter saído da região. Revoltado com seu destino desde sempre, teve força e coragem de ser o primeiro a revelar o que aconteceu com o grupo após saírem do orfanato.

Na segunda vez que o encontramos , convidei Seu Aluizio para voltar ao Rio de Janeiro e visitar o orfanato Romão Duarte. “Posso levar minha neta e meu neto?”. Claro que sim.

Ele pegou um avião pela primeira vez, viu do alto a cidade onde nasceu, sorriu quando passamos ao lado do Cristo Redentor e também reconheceu a praia do Flamengo que frequentou na infância.

No dia seguinte pela manhã, estava animado e elegante. Estreava roupas novas e sapatos para um encontro com suas memórias cariocas.

Enquanto subia as escadas imponentes de acesso ao orfanato, seu rosto foi assumindo uma expressão grave, concentrada. O olhar passeava pelos detalhes do prédio. Os passos eram lentos. Um silêncio se impôs à equipe. Podíamos quase tocar as lembranças enterradas há mais de 80 anos em cada cômodo e que agora vinham à tona, tomando, dominando, embargando Seu Aluizio.

Não eram memórias agradáveis. O grande quarto coletivo estava vazio naquele momento, fileiras de camas arrumadas, vozes de crianças ao fundo,  em outro andar do prédio. O ar parou quando Seu Aluizio entrou.

Ele titubeava quanto a que direção seguir. Resolveu sair pelos fundos.

No pátio interno – o recreio para as crianças do orfanato – Seu Aluizio sorriu tristemente. “Nossa vida era brincar de bola de gude, patinete…” Quando ele reviu o passadiço que liga o prédio ao Morro Azul, ele começou a falar. Com dor e emoção. “Jogaram balas [dali] para os meninos pegar, e escolhiam os mais rápidos. Era o mesmo que um gado. Fomos separados dos outros meninos.”  Andando em direção aos cantos, continuava: “Nós nem sabíamos onde era São Paulo.” E depois, “A gente só pensava em fugir. Fugir.”

E finalmente numa pausa , o desabafo duro, “Minha infância foi roubada.”

Naquele momento testemunhamos aquela  história escandalosa de manipulação de uma infância desassistida e os maus tratos que viveram depois da saída do orfanato ganhar  vida novamente  na voz de Seu Aluizio. A História com H maiúsculo muitas vezes distante –Vargas, o Integralismo, eugenia, elites racistas – virando carne ali de novo, registrada pelo seu impacto inexorável na vida de Seu Aluízio.  E de quantos outros?

Ficamos ali atentos, a câmera reverente testemunhando a história ganhar matéria, a memória virar filme.

NOTA DO EDITOR:

Menino 23 é um documentário brasileiro de Belisário Franca lançado em 2016. O título é uma homenagem a Aloisio Silva, que era chamado apenas por este número durante sua infância, na década de 1930, período que foi escravizado em uma fazenda no município de Campina do Monte Alegre por fazendeiros-empresários brasileiros da família Rocha Miranda. O filme esteve na disputa, por uma indicação, ao Oscar de Melhor Documentário no Oscar 2017. Prêmios conquistados:

Prêmio de Melhor Pesquisa – RECINE – Festival Internacional de Cinema de Arquivo – 2017
Melhor documentário no Montreal International Black Film Festival – 2017
Prêmios de melhor documentário pelo voto popular e do júri técnico – Grande
Prêmio do Cinema Brasileiro 2017
Prêmio de melhor roteiro e montagem no 26º Festival IberoAmericano Cine CE
Prêmio de melhor roteiro e montagem no 2º Festival Internacional Arquivo em Cartaz
Prêmio Margarida de Prata de melhor longa 2017

Seleção Oficial Encounters da Africa do Sul 2016
Seleção Oficial Ischia Film Festival – Itália 2016
Seleção Oficial United Nations Association Film Festival (UNAFF) – EUA 2016
Seleção Oficial 11º Addis International Film Festival na Etiópia – 2017
Seleção Oficial 4ª Construir CINE Festival Internacional de Cinema sobre o Trabalho – Buenos Aires 2017
Seleção Oficial 11ª Mostra Cinema e Direitos Humanos – 2017
Seleção Oficial 19ª Festival Brasileiro em Paris – 2017
Seleção oficial na long list de melhor documentário no Oscar 2017
Seleção Oficial Cine Pojichá -1º Festival de Cinema dos Vales do Mucuri e
Jequitinhonha – 2017
Seleção oficial para concorrer como melhor documentário no 4º prêmio Platino de
cinema Ibero Americano – 2017
Seleção Oficial no Toronto International Black Film Festival – 2018
Seleção oficial da 3ª semana Brasileira de Cinema e Cultura de Sofia – Bulgária 2018
14 ª Mostra Internacional do Cinema Negro – Rio 2018

TODAY’S CINEMARCO GUEST IS THE AWARD-WINNING BRAZILIAN FILMMAKER BELISÁRIO FRANCA.

BOY 23

The first time I met Seu Aluizio Silva to film was in August 2011.

He was then 89 years old, 80 years living in the city of Capina de Monte Alegre in the interior of São Paulo. Seu Aluizio was one of 50 orphaned and black boys who were removed in 1933, from the Romão Duarte Orphanage in Rio de Janeiro, to Fazenda Santa Albertina in the Paranapanema region. The farm belonged to a family that had members in the Integralist Party and sympathizers with the Nazism that flourished in Brazil at that time. This group of boys worked in a regime similar to slavery – without the right to education or salary, subject to physical punishment – until 1942, when they were released; and, in practice, expelled from the property, without material resources and after years of very little social interaction with the small neighboring cities.

On the farm each one was numbered and henceforth called by its number. Seu Aluizio was 23, the main character of the documentary BOY 23. He survived hard without ever leaving the region. Disgusted with his fate forever, he had the strength and courage to be the first to reveal what happened to the group after they left the orphanage.

The second time we met him, I invited Seu Aluizio to return to Rio de Janeiro and visit the Romão Duarte orphanage. “Can I take my granddaughter and my grandchild?” Of course yes.

He took a plane for the first time, saw the city where he was born from above, smiled when we passed by the Cristo Redentor statue and also recognized the Flamengo beach he went as a child.

The next morning, he was excited and elegant. She debuted new clothes and shoes for an encounter with her memories from Rio.

As he climbed the imposing stairs leading to the orphanage, his face took on a serious, concentrated expression. The gaze wandered over the details of the building. The steps were slow. A silence was imposed on the team. We could almost touch the memories that were buried more than 80 years ago in each room and that now came to the surface, taking, dominating, embargoing Seu Aluizio.

These were not pleasant memories. The large collective room was empty at that moment, rows of tidy beds, children’s voices in the background, on another floor of the building. The air stopped when Seu Aluizio entered.

He hesitated as to which direction to go. He decided to go out through the back door.

In the inner courtyard – the children’s playground at the orphanage – Seu Aluizio smiled sadly. “Our life was playing marbles, scooters …” When he reviewed the walkway that connects the building to Morro Azul, he started to speak. With pain and emotion. “They threw candies [from there] for the boys to pick up, and chose the fastest ones. It was the same as a cattle. We were separated from the other boys. ”; Walking towards the corners, he continued: “We didn’t even know where São Paulo was.” And then, “We just thought about running away. To run away.”

And finally, in a pause, the hard outburst, “My childhood was stolen.”

At that moment we witnessed that scandalous story of manipulation of an unassisted childhood and the mistreatment that they lived after leaving the orphanage to win; life again; in Seu Aluizio’s voice. History with a capital H often distant – Vargas, Integralism, eugenics, racist elites – becoming flesh there again, recorded by its inexorable impact on the life of Seu Aluízio; And how many others?

We stayed there, the reverent camera witnessing history gaining material, memory becoming a film.

EDITOR’S NOTE: Menino 23 is a Brazilian documentary by Belisário Franca released in 2016. The title is a tribute to Aloisio Silva, who was called only by this number during his childhood, in the 1930s, a period that was enslaved on a farm in the municipality of Campina do Monte Alegre by Brazilian farmers-entrepreneurs of the Rocha Miranda family. The film was in competition for the Oscar for Best Documentary at the Oscar 2017.

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