É dia de quarentena (de novo): as lições de uma comédia romântica para o jornalismo e a vida

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É O JORNALISTA FELIPE VIEIRA.

Todo jornalista tem uma lista básica de filmes preferidos sobre a profissão. Muitos se repetirão. em qualquer relação de cinco estará, com certeza, Todos os Homens do Presidente. O maravilhoso filme dirigido por Alan Pakula mostra Dustin Hoffman e Robert Redford interpretando os repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward, do Washington Post, no Caso Watergate, que levou à queda do presidente dos Estados Unidos Richard Nixon. Outro certamente nominado é Cidadão Kane, obra-prima de Orson Welles, que dirigiu e atuou para contar a história do poderoso William Randolph Hearst, magnata dos jornais, recriado sob a figura de Charles Foster Kane. Por fim, Rede de Intrigas, em que Sidney Lumet usa de uma ironia cáustica para mostrar o que acontece nos bastidores de uma TV.

Os outros dois filmes da lista podem variar: A Montanha dos Sete AbutresSpotlight, The Post, Boa noite e boa sorte, A primeira página, Frost/Nixon, O custo da coragem, O mercado da notícia, Os gritos do silêncio, Síndrome da China, O diabo veste Prada e tantos outros… Filmes que mostram atos heroicos, reportagens investigativas, desafio aos poderosos, dias emocionantes, glamour e o charme do que muitos acreditam haver no jornalismo e, na verdade, muitas vezes é mesmo. Porém, a realidade diária do jornalismo também contém o elemento rotina, como quase todas as outras profissões.

Por isso, muitas vezes, quando vou palestrar para estudantes, surpreendo professores e alunos – que esperam que eu me refira a um dos filmes acima – ao dizer que uma obra que retrata o verdadeiro cotidiano do jornalismo é O Feitiço do Tempo, de Harold Ramis. Aquele filme do Bill Murray, do Dia da Marmota. Por quê? Porque todos os anos, em maior ou menor número, as pautas se repetem. Em tempo de pandemia, tenho recordado muito da história e cenas de Murray em Punxsutawney, Pensilvânia.

No começo da pandemia da Covid-19, vi várias citações a Contágio e outros filmes que tratam de doenças e calamidades. À medida que os meses vão passando, e a rotina do confinamento, se repetindo, me parece que caímos no mesmo “feitiço” do repórter Phil Connors. Não, eu não acordo todos os dias ouvindo “I Got You Babe” com Sonny e Cher, mas há horas que me vejo cantarolando a música. Nas redes sociais, existe um vídeo de Murray, como Phil, anunciando: “É dia de quarentena … de novo”.

Enviado pelo quarto ano para realizar a cobertura do festival do Dia da Marmota, Phil Connors fica indignado com a tarefa. E ele passa o dia, como fez em anos anteriores, ridicularizando o evento e seus participantes, com vontade de encerrar o trabalho e ir embora. Por motivos não explicados, ele acorda na manhã seguinte e se flagra novamente vivendo o dia 2 de fevereiro, o Dia da Marmota. Desesperado, tenta escapar do ciclo do tempo detido sem ter o que fazer em uma armadilha temporal sem previsão de acabar. A arrogância vai sendo deixada de lado até que ele pode vive um dia de empatia, generosidade, amor… e avança para 3 de fevereiro.

Muitos lembrarão do filme como uma comédia, história de amor ou pela mensagem positiva de crescimento humano. A exemplo do momento difícil que vivemos, Feitiço do tempo mostra a escuridão antes do novo amanhecer de Phil, um homem atormentado não apenas pela repetição incessante, mas pelo fato de ter de suportar os dias intermináveis sem saber como ou se a rotina terminará. A exemplo do que muitos de nós vivemos hoje trabalhando home-office, com nossos filhos tendo educação a distância e considerar a rotina como uma dificuldade. A quarentena, esse ato de distanciamento físico, faz com que as pessoas se sintam isoladas do próprio tempo.Diferente da ficção, vivemos a realidade, mas podemos aprender com o personagem de Bill Murray, esta é a hora de resgatarmos a empatia com o próximo. Ninguém sabe quanto tempo viveremos com o risco de sermos infectados pela Covid-19.

E o jornalismo nisso tudo? Seguiremos, a exemplo de Phil Connors, repetindo todos os dias os fatos em torno da doença, até que um dia todos celebraremos a manchete da vacina que nos livrará do vírus. Que seja em breve, mas, enquanto esse dia não chegar leia um bom livro, veja um grande filme e pratique empatia.

TODAY’S GUEST IN CINEMARCO IS JOURNALIST FELIPE VIEIRA.

Every journalist has a basic list of favorite films about the profession. Many will be repeated. in any relationship of five there will surely be All the President’s Men. The wonderful film directed by Alan Pakula shows Dustin Hoffman and Robert Redford playing Washington Post reporters Carl Bernstein and Bob Woodward in the Watergate Case that led to the fall of US President Richard Nixon.

Another certainly named is Citizen Kane, a masterpiece by Orson Welles, who directed and acted to tell the story of the powerful William Randolph Hearst, newspaper mogul, recreated under the figure of Charles Foster Kane. Finally, Rede de Intrigas, in which Sidney Lumet uses a caustic irony to show what happens behind the scenes of a TV.

The other two films on the list may vary: Ace in the Hole, Spotlight, The Post, Good night and good luck, The front page, Frost / Nixon, Veronica Guerin, The news market, The Killing Fields, The China Syndrome, The devil wears Prada and so many others …

Films that show heroic acts, investigative reporting, challenging the powerful, exciting days, glamour and the charm of what many believe to exist in journalism and, in fact, often it is. However, the daily reality of journalism also contains the element of routine, like almost all other professions.

That is why, many times, when I am going to lecture to students, I surprise teachers and students – who expect me to refer to one of the films above – by saying that a work that portrays the true daily life of journalism is Harold Ramis‘s THE GROUNDHOG DAY . That Bill Murray movie. Why? Because every year, in greater or lesser numbers, the guidelines are repeated. In pandemic times, I have recalled much of Murray’s history and scenes in Punxsutawney, Pennsylvania.

At the beginning of the Covid-19 pandemic, I saw several quotes from CONTAGION and other films that deal with diseases and calamities. As the months go by, and the routine of confinement, repeating itself, it seems to me that we have fallen into the same “spell” as reporter Phil Connors. No, I don’t wake up every day listening to “I Got You Babe” with Sonny and Cher, but for hours I find myself humming the song. On social media, there is a video of Murray, like Phil, announcing: “It’s quarantine day … again”.

Sent for the fourth year to cover the Groundhog Day festival, Phil Connors is outraged by the task. And he spends the day, as he did in previous years, ridiculing the event and its participants, wanting to finish the job and leave. For unexplained reasons, he wakes up the next morning and finds himself again living on February 2nd, Groundhog Day. Desperate, he tries to escape the cycle of time held without having to do anything in a time trap with no forecast of ending. The arrogance is being left aside until he can live a day of empathy, generosity, love … and he advances to February 3rd.

Many will remember the film as a comedy, love story or positive message of human growth. Like the difficult time we are experiencing, GROUNDHOG DAY shows the darkness before Phil’s new dawn, a man tormented not only by incessant repetition, but by the fact that he has to endure endless days without knowing how or if the routine will end. Similar to what many of us live today working from home, with our children having distance education and considering routine as a difficulty.

Quarantine, this act of physical detachment, makes people feel isolated from their own time. Unlike fiction, we live in reality, but we can learn from the character of Bill Murray, this is the time to rescue empathy with others . No one knows how long we will live with the risk of being infected with Covid-19.

And journalism in all this? We will follow, like Phil Connors, repeating the facts about the disease every day, until one day we will all celebrate the headline of the vaccine that will get rid of the virus. May it be soon, but until that day comes, read a good book, watch a great movie and practice empathy.

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