UMA DÚVIDA COMPLEXA

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO é O CIENTISTA POLÍTICO E SOCIÓLOGO LÉO VOIGT

Sou apaixonado por cinema; por bons filmes. Talvez eu seja um cinéfilo; mas não creio que do tipo convencional. Não gosto de qualquer filme. Com a atual abundância de acessos via streaming, vejo que sou especialmente seletivo. Tenho dificuldades em assistir filmes com minhas filhas e mulher. Gosto de filmes históricos (Spielberg e Lelouch), densos (Margareth von Trota e Fassbinder), reflexivos (Bergman e Herzog), psicanalíticos (1922 de Stephen King ou filmes do Buñuel); reconstituição de narrativas desconhecidas (Milada Horákova ou No tempo das Borboletas); políticos (Costa Gavras e Bertolucci), entre tantos. Elas, adoram películas leves: humor, romance, diversão… as quais tenho total desinteresse.

Histórias reais me são fascinantes. Via de regra, não esqueço o diretor, o ator, o momento histórico que narra. Mas isso falhou em um dos mais importantes filmes da minha vida. Não consigo lembrar o nome, o diretor, atores, estúdio…. Nada! Tenho alguns flashes de memória e lembro mesmo só da cena inicial, embora recorde toda a mensagem central. E pior: a maturidade foi fortalecendo a importância do filme perdido no passado, ao longo da minha vida. Foi tema em vários diálogos terapêuticos. Já pesquisei e nada encontro. Consultei meu orientador cinematográfico – Marco Antonio Campos e nem ele tem ideia do que estou falando. Me parece que foi um sonho forte, uma fantasia que tive na juventude, e nunca existiu de fato. Não encontro pistas.

Assisti há mais de 30 anos o belíssimo filme que se passa, creio, numa nação da Europa central, provavelmente já sob influência da Alemanha Nazista (Tchecoslováquia, Áustria, Hungria ou mesmo Polônia). Inicia com a seguinte cena (do que dela lembro): há uma pessoa na sala da residência, olhando o cenário de neve lá fora por ampla janela de vidro. A filmagem se dá de dentro da casa. Em seguida, um ciclista de meia idade risca os platôs de neve pedalando sem pressa. Ele vem da direita em relação a quem assiste. Na sequência, irrompe alguém correndo por trás e dispara um tiro nas costas, assassinando o sereno transeunte.

O filme corta aí e entre uma cena contemporânea da vida regular de uma jovem moça em uma metrópole moderna. Nos dias seguintes ela se faz a pergunta: porque meu avô foi assassinado? Os pais nunca quiseram mexer na história sofrida e nada sabiam informar a filha sobre sua curiosidade afetiva; sobre sua história familiar.

A narrativa prossegue com os diversos esforços da jovem em descobrir a história negada por décadas por aqueles que a sofreram. Algo tão comum naqueles que viveram traumas pessoais e familiares e só as gerações futuras terão distanciamento, serenidade e motivação para reconstituir episódios sobre resistência e sofrimento de sobreviventes de guerras, migrações, perseguições, grandes perdas e injustiças (lembro de O Leitor).

O filme é lindo. Bem filmado, boa fotografia e colorido. Uma narrativa envolvente. Dele tenho um saudoso prazer em assistir novamente e guardo, acima disso, uma importante lição para a vida: perguntas que hoje não fazemos e respostas que não buscamos poderão ser requeridas pelas gerações futuras; elas estarão autorizadas a sugerir omissão ou negação.

O filme sem nome, nem dados, fragmentos na memória, que muito pesquisei e não reencontro, determinou meu precoce interesse em buscar todas informações familiares pregressas possíveis, que sejam relevantes, e que um dia minhas filhas poderão formular. Isso tem acontecido agora, na quarentena. As meninas estão adultas, olhando fotos, vídeos, lembranças, heranças e já aparecem as curiosidades de maturidade. Elas tem entre 20 e 25 anos. Até aqui meu esforço de colher as informações familiares –  as minhas e da família de minha mulher de 30 anos, foi bem sucedido. Não há quase perguntas sem respostas consistentes e fundamentadas. Mas não tenho-as todas. Há pedaços que busquei e não obtive. Se comparecerem, essas não serão atendidas. Resta minha resignação que não dependeu de mim.

O filme mostra como os traumas são compreensivamente bloqueados por aqueles que os viveram. São pulados, desprezados pela geração seguinte, mas estarão presentes nas falhas afetivas, nas incompreensões e incompletudes narrativas que somente os netos e seguintes poderão requerer. 

Como eu gostaria de reencontrar esse filme sobre um episódio da Segunda Guerra. Ao final e sem spoiler, a neta volta à cena original do assassinato do avô e o mistério começa a se descortinar, dando origem a respostas.

Ahhhh o cinema! Ahhhh a vida!

TODAY’S GUEST OF CINEMARCO IS POLITICAL AND SOCIOLOGICAL SCIENTIST LÉO VOIGT

I am passionate about cinema; for good movies. Maybe I’m a movie buff; but I don’t think it’s the conventional type. I don’t like any movie. With the current abundance of accesses via streaming, I see that I am especially selective. I have difficulties watching movies with my daughters and wife. I like historical films (Spielberg and Lelouch), dense (Margareth von Trota and Fassbinder), reflective (Bergman and Herzog), psychoanalytic (1922 by Stephen King or films by Buñuel); reconstruction of unknown narratives (Milada Horákova or In the time of the Butterflies); politicians (Costa Gavras and Bertolucci), among so many. They love light films: humor, romance, fun … which I have no interest in.

Real stories are fascinating to me. As a rule, I don’t forget the director, the actor, the historical moment he narrates. But that failed in one of the most important films of my life. I can’t remember the name, the director, actors, studio …. Nothing! I have some flashes of memory and I only remember the opening scene, although I remember the whole central message. And worse: maturity has strengthened the importance of the film lost in the past, throughout my life. It was the subject of several therapeutic dialogues. I already researched and found nothing. I consulted my cinematographic advisor – Marco Antonio Campos and he has no idea what I’m talking about. It seems to me that it was a strong dream, a fantasy that I had in my youth, and it never really existed. I can’t find any clues.

I watched the beautiful film that takes place, I believe, in a central European nation, probably already under the influence of Nazi Germany (Czechoslovakia, Austria, Hungary or even Poland). It starts with the following scene (from what I remember): there is a person in the living room, looking at the snow scene outside through a large glass window. The filming takes place from inside the house. Then, a middle-aged cyclist scratches the snow plateaus while cycling leisurely. It comes from the right in relation to those who assist. In the sequence, someone runs in from behind and fires a shot in the back, murdering the serene passerby.

The film cuts there and between a contemporary scene of the regular life of a young girl in a modern metropolis. In the following days she asks the question: why was my grandfather murdered? The parents never wanted to touch the story they suffered and knew nothing about informing their daughter about their affective curiosity; about your family history.

The narrative continues with the young woman’s various efforts to discover the story denied for decades by those who suffered it. Something so common in those who have experienced personal and family traumas and only future generations will have distance, serenity and motivation to reconstruct episodes about resistance and suffering of survivors of wars, migrations, persecutions, great losses and injustices (I remember The Reader).

The film is beautiful. Well filmed, good photography and colorful. An engaging narrative. I have a homesick pleasure in watching it again and, above that, I keep an important lesson for life: questions that we do not ask today and answers that we do not seek may be required by future generations; they will be allowed to suggest omission or denial.

The film with no name, no data, fragments in memory, which I researched a lot and did not find again, determined my early interest in searching for all possible previous family information, which is relevant, and which one day my daughters will be able to formulate. This has happened now, in the quarantine. The girls are adults, looking at photos, videos, memories, inheritances and the curiosities of maturity have already appeared. They are between 20 and 25 years old. So far my effort to gather family information, mine and my 30-year-old wife’s family, has been successful. There are almost no questions without consistent and substantiated answers. But I don’t have them all. There are pieces that I searched for and didn’t get. If they do, they will not be attended to. There remains my resignation that did not depend on me.

The film shows how traumas are understandably blocked by those who experienced them. They are skipped over, despised by the next generation, but they will be present in the affective flaws, in the misunderstandings and incomplete narratives that only the grandchildren and subsequent ones may require.

How I would like to rediscover this film about an episode of World War II. At the end and without spoiler , the granddaughter returns to the original scene of her grandfather’s murder and the mystery begins to unfold, giving rise to answers.

Ahhhh the cinema! Ahhhh life!

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.