DA VIDA DOCE À GRANDEZA DA BELEZA PERDIDA

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É O ADVOGADO GABRIEL DE FREITAS MELRO MAGADAN.

A ficção narrativa que encontra a vida no já cultuado filme de Paolo Sorrentino, A Grande Beleza (La Grande Belezza, Itália, 2013) segue o fio que tem origem em A Doce Vida (La dolce vita, Itália, 1960) de Fellini. O personagem de Toni Servillo, o jornalista e escritor, Jep Gambardela, em seu mundo melancólico de fantasia e caos, rememorando lembranças de um amor perdido e de um mundo se esvaindo, é um traço da figura amadurecida de Marcello Rubini, interpretada por um Mastroianni ainda jovem, que se encaminha à desilusão de uma realidade etérea. E trazem na essência algo que parece comum ao que estamos vivendo, no que pode ser visto como um extremo de sentimentos e de passagem do vivido ao imaginário.

A frieza e a beleza da Roma pós-guerra, retratada no filme de Fellini, reconstruindo-se em meio a contrastes de miséria, crença religiosa e solipsismo, num universo de celebridades desencontradas, que reluzem aos flashes dos paparazzi (o nome, aliás, dado aos fotógrafos sensacionalistas, foi popularizado a partir do personagem que acompanha Marcello no filme), são forma e conteúdo da linguagem cinematográfica, e que, explorados no enredo mundano de seus personagens, transfiguram-se na verdadeira expressão da natureza humana. Está também posta, num e noutro filme, uma tal angústia do vazio, sentimento que jaz inexorável, e que se vê constantemente, exceto talvez pelo fato de que havia no primeiro filme uma sutil esperança na modernidade, nada mais falso e inverossímil.

A desilusão, por sua vez, é antecipada pela própria plástica, e invade as duas narrativas com elementos que se encontram e dialogam propositadamente. Marcello é um repórter de fofocas que aspira escrever um livro, vive em um ambiente disperso, onde se encontram todo tipo de individuo atordoado, tentando se entreter em face ao tédio da vida. A cena clássica de Anita Eckberg se banhando na Fontana di Trevi, aos olhos de um Marcello atônito, é magistral. Jep, no entanto, completa sessenta anos, é também jornalista, autor de um único romance, circula indistintamente por festas desde que chegou à Roma aos seus vinte e seis anos, frequentando-as ao máximo do gozo; em dado momento entrevista uma artista nonsense, que lembra Marina Abramović e seu exotismo, participa solenemente de uma ceia com uma freira tida por milagrosa, e com quem divide a sua íntima memória do amor passado.

O encontro com a madre é uma espécie epifania, ou de emulsão cinematográfica. Ao entardecer que emoldura a paisagem romana com o coliseu ao fundo, vê-se sentada contemplando uma horda de flamingos migrantes que repousam na varanda, e pergunta a Jep, que chega por trás em silêncio, porque não escreveu mais, e ele responde que não havia encontrado o que faltava, a “grande beleza”. Marcello de Fellini não descobriu o que procura, os holofotes ainda ofuscam. A freira indaga, por fim, se Jep sabe porque ela só come radicci e revira a cabeça com um olhar cansado: “- Perche le radicci sono importante”. O trocadilho na palavra italiana é que a salada verde que indica a grafia com o duplo “c” pode ser ouvida também com raízes (radici). A cena termina com a revoada dos pássaros.

As inúmeras referências pavimentam a estrada que conecta as duas realidades. O contraste se vê no esplendor dos matizes e rumores, de um lado e doutro, do noir ao estrondoso colorido – que também aparece em obras posteriores de Fellini, como Julieta dos Espíritos (Giulietta degli spiriti, Itália, 1965); do sonolento ao rumor de ruídos inaudíveis, do blá-blá infindável, de agitação frívola que ecoa no vazio de sentido. Os personagens estão enredados na atmosfera dissonante, como é a própria arte em si, e que aparece como refúgio para as angústias da vida. Entre eles está o intervalo de tempo que supera a virada do século e que, no final de contas, encara em si a indelével desesperança, do ardor na despedida de um passado idílico, ilustrados pela imagem de uma jovem relegada à memória, que chama Marcello em uma praia e que ele não mais escuta, ou na jovem que Jep conheceu na sua juventude. Tudo ruma e deflagra uma realidade caótica, situada pelo desconforto da existência. Sofrimento que de tão comum ao ser humano torna reais os personagens de A doce vida e A grande Beleza.

Esses dois filmes fui rever para atender ao pedido do Marco Antônio e da sua iniciativa aqui neste blog. O cinema tem dessas coisas, faz refletir, conjecturar, e mesmo fantasiar sobre os paralelos alternativos da realidade. Até mesmo quando a realidade em si se sobrepõe à fabulação da ficção. E tudo isso, não se pode deixar de dizer, faz-se atual neste momento de pandemia e afastamento social, que pode ter no exercício da imaginação um antídoto ou um placebo com efeitos convalescentes.

Ao rever os dois filmes, que são marcantes para mim, especialmente por ter vivido na Roma do ano 2000, interlúdio por assim dizer entre as duas épocas em que se passam as histórias, dei-me conta de similaridades, que incluem o nosso momento. A ruptura que o vírus está trazendo para a realidade é um verdadeiro plot twist, uma guinada de acontecimentos, que relativiza algumas questões presentes nas narrativas de Fellini e Sorrentino, como as de um mundo intenso, frenético e incrivelmente perdido, refeitos talvez nos dias de hoje por imagens na tela, pela comunicação surda das redes sociais e suas bolhas interconectadas por desajuste e ódio.

Jep ao voltar à ilha de seu encontro com a jovem do passado, tem a consciência exata do tempo. A vida é um truque para a distração do que vem além. O que fica é sempre a esperança de que há algo novo, que a dialética do cinema nos ensina; que o pessimista ou otimista vislumbra, mediada pela capacidade crítica e pela criatividade humana, que tem nas artes, cinema e literatura, além das suas múltiplas expressões, a grande sacada da vida para se viver. Podemos quiçá contar com a nossa humanidade para seguir em frente, na doçura e na beleza, na antítese da angústia e do desassossego; em síntese, na metáfora e na poesia. Na tela ou na rua, quando as portas se abrirem, “que o romance tenha início… pois, no fundo é só um truque, é só um truque”, como reflete o personagem em sua cena final.

THE GUEST OF CINEMARCO TODAY IS THE LAWYER GABRIEL DE FREITAS MELRO MAGADAN.

The narrative fiction that finds life in Paolo Sorrentino‘s long-loved film, THE GREAT BEAUTY (La Grande Belezza, Italy, 2013) follows the thread that originates in Fellini‘s THE SWEET LIFE (La Dolce Vita, Italy, 1960). The character of Toni Servillo, the journalist and writer, Jep Gambardela, in his melancholy world of fantasy and chaos, recalling memories of a lost love and a world that is disappearing, is a trace of the mature figure of Marcello Rubini, played by a Mastroianni still young, who is heading towards the disillusionment of an ethereal reality. And they bring in essence something that seems common to what we are experiencing, in what can be seen as an extreme of feelings and a transition from the lived to the imaginary.

The coldness and beauty of post-war Rome, portrayed in Fellini’s film, rebuilding itself in the midst of contrasts of misery, religious belief and solipsism, in a universe of mismatched celebrities, which shine with the flashes of the paparazzi (the name, moreover, given to sensationalists photographers, it was popularized from the character that accompanies Marcello in the film), they are form and content of cinematographic language, and which, explored in the mundane plot of their characters, are transformed into the true expression of human nature. There is also, in both films, an anguish of emptiness, a feeling that lies inexorable, and that is seen constantly, except perhaps for the fact that in the first film there was a subtle hope in modernity, nothing more false and unlikely.

Disappointment, in turn, is anticipated by the plastic itself, and invades both narratives with elements that meet and dialogue on purpose. Marcello is a gossip reporter who aspires to write a book, lives in a dispersed environment, where all kinds of stunned individuals are found, trying to entertain themselves in the face of life’s boredom. The classic scene of Anita Eckberg bathing in the Fontana di Trevi, in the eyes of an astonished Marcello, is masterful. Jep, however, turns sixty, is also a journalist, author of a single novel, circulating indistinctly at parties since he arrived in Rome at the age of twenty-six, attending them to the maximum of enjoyment; at a certain moment an interview by a nonsense artist, reminiscent of Marina Abramović and her exoticism, solemnly participates in a supper with a nun considered miraculous, and with whom she shares her intimate memory of past love.

The encounter with the mother is an epiphany, or cinematic emulsion. At dusk that frames the Roman landscape with the coliseum in the background, she finds herself seated contemplating a horde of migrating flamingos resting on the veranda, and asks Jep, who arrives in silence from behind, because he hasn’t written any more, and he replies that he doesn’t had found what was missing, the “great beauty”. Marcello de Fellini has not found what he is looking for, the spotlight is still blinding. Finally, the nun asks if Jep knows why she only eats radicci and rolls her head with a tired look: “- Perche le radicci sono tempo”. The pun in the Italian word is that the green salad that indicates the spelling with the double “c” can also be heard with roots (radici). The scene ends with the flight of birds.

The countless references pave the road that connects the two realities. The contrast is seen in the splendor of the nuances and rumors, on one side and the other, from noir to the resounding color – which also appears in later works by Fellini, as Giulietta degli spiriti (Italy, 1965); from drowsiness to the noise of inaudible noises, from endless blah blah, frivolous agitation that echoes in the void of meaning. The characters are entangled in the dissonant atmosphere, as is the art itself, and it appears as a refuge for life’s anxieties. Among them is the time interval that surpasses the turn of the century and, in the end, faces in itself the indelible hopelessness, of the ardor in the farewell to an idyllic past, illustrated by the image of a young woman relegated to memory, who calls Marcello on a beach that he no longer listens to, or the young woman Jep met in his youth. Everything heads for and unleashes a chaotic reality, located by the discomfort of existence. Suffering that is so common to human beings makes the characters of The Sweet Life and The Great Beauty real.

These two films I went to review to meet Marco Antonio’s request and his initiative here on this blog. The cinema has these things, makes we reflect, conjecture, and even fantasize about the alternative parallels of reality. Even when the reality itself overlaps the fictionalization of fiction. And all of that, it must be said, is present in this moment of pandemic and social withdrawal, which may have in the exercise of the imagination an antidote or a placebo with convalescent effects.

In reviewing the two films, which are remarkable for me, especially for having lived in Rome in the year 2000, an interlude, so to speak, between the two seasons in which the stories take place, I realized similarities, which include our moment. The rupture that the virus is bringing to reality is a true plot twist , a turn of events, which relativizes some issues present in the narratives of Fellini and Sorrentino, such as those of an intense, frantic and incredibly world lost, perhaps remade nowadays by images on the screen, by the deaf communication of social networks and their bubbles interconnected by misfit and hatred.

Jep, upon returning to the island of his encounter with the young woman of the past, has an exact awareness of time. Life is a trick to distract from what is beyond. What remains is always the hope that there is something new, that the dialectic of cinema teaches us; that the pessimist or optimist sees, mediated by the critical capacity and human creativity, which has in the arts, cinema and literature, in addition to its multiple expressions, the great insight of life to live. Perhaps we can count on our humanity to move forward, in sweetness and beauty, in the antithesis of anguish and unrest; in summary, in metaphor and in poetry. On the screen or in the street, when the doors open, “ let the romance begin … because, in the end, it’s just a trick, it’s just a trick ”, as reflected by the character in his final scene.

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