REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL: A Sombra de Hitchcock é Mais Poderosa que a de Rebecca

Fui correndo ver REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL, produção esmerada da NETFLIX, dirigida pelo cineasta inglês Ben Wheatley, que faz uma releitura da história clássica do livro da escritora Dame Daphne du Maurier (que também foi a autora de OS PÁSSAROS), sempre sob a sombra do filme icônico de Alfred Hitchcock, que em 1940 ganhou o Oscar de Melhor Filme e Fotografia.

O filme de Hitchcock (que não revejo há muitos anos) tinha Joan Fontaine (uma atriz soberba) como a jovem Mrs. de Winter, uma mulher pobre que se apaixona pelo milionário Max de Winter (ninguém menos que Laurence Olivier, um dos maiores atores da história do cinema), casa com ele e vai morar na lendária mansão Manderley, onde tem que enfrentar a memória da falecida Rebecca e a misteriosa governanta Mrs. Danvers (Judith Anderson). O filme de Hitchcock, seu primeiro projeto nos EUA (sob a produção de David O. Selznick (do lendário E O VENTO LEVOU), é um drama psicológico gótico incrível, que tem como personagem central uma mulher que não aparece.

Não há como negar que a nova versão é uma produção altamente esmerada, em que cenários e figurinos são nada menos que deslumbrantes. O incrível desfile de roupas e paisagens é tão fascinante que por vezes supera o desenvolvimento da história, tendo gerado algumas críticas de que o filme seria vazio. Não concordo. Acho que a história genial de Daphne du Maurier resiste a esta certa superficialidade do novo roteiro que investiu mais do romance que no suspense.

A sombra da Rebecca de Hitchcock é tão terrível para o filme de Wheatley quanto a da Mrs. de Winter original era para a nova esposa de Max. Cada comparação mostra uma superioridade acachapante do filme original. Refilmar as obras de Hitchcock (um dos maiores gênios do cinema) oscila entre uma missão impossível ou uma missão suicida.

Não desgosto do trabalho do elenco do filme atual: sou fã de carteirinha de Kristin Scott Thomas (que faz uma Mrs. Danvers impecável e assustadora, com nuances de uma paixão patológica pela ex-patroa e talvez pelo patrão) e nem da jovem Lily James (uma moça de 31 anos que gosta de desafios (já fez CINDERELLA, GUERRA E PAZ e ALL ABOUT EVE, este no teatro). As duas me parecem muito bem em seus difíceis papeis. Acho mesmo que o diretor poderia ter dado mais tempo a elas e seu duelo (quase sempre silencioso) pela hegemonia de Manderley. Com relação ao ator californiano Armie Hammer, em primeiro lugar há que se conceder que pegar o papel de Laurence Olivier era demais para ele. A distância ente eles é abissal. Depois de vários trabalhos fracos (THE LONE RANGER é de doer) achei ele muito bem em SUPREMA, até hoje seu trabalho mais elaborado. Mas seu Max de Winter é um dos pontos fracos do novo filme.

REBECCA traz de volta a polêmica das refilmagens. Homenagem aos clássicos ou falta de criatividade? Pelo sim, pelo não, acho que os grandes clássicos devem ser evitados. A comparação entre o novo filme e o clássico quase sempre já deixa a nova obra partir com um passivo insuportável, como o fantasma de Rebecca.

I went to see REBECCA in its release day, a top of line production by NETFLIX, directed by English filmmaker Ben Wheatley, who reinterprets the classic story of the book by writer Dame Daphne du Maurier (who was also the author of THE BIRDS), always under the shadow of Alfred Hitchcock‘s iconic film, which in 1940 won the Oscar for Best Film and Photography.

Hitchcock’s film (which I haven’t seen for many years) featured Joan Fontaine (a superb actress) as young Mrs. de Winter, a woman who falls in love with millionaire Max de Winter (none other than Laurence Olivier, one of the greatest actors of cinema history), marries him and moves to the legendary Manderley mansion, where she has to face the memory of the late Rebecca and the mysterious housekeeper Mrs. Danvers (Judith Anderson). Hitchcock’s film, his first US project (produced by David O. Selznick from the legendary GONE WITH THE WIND), is an incredible gothic psychological drama, whose central character is a woman who does not appear.

There is no denying that the new version is a highly elaborated production, in which sets and costumes are nothing short of stunning. The incredible parade of clothes and landscapes is so fascinating that it sometimes exceeds the development of the story, having generated some criticism that the film would be empty. I do not agree. I think Daphne du Maurier‘s brilliant story resists this superficiality of the new script that invested more in the novel than in the suspense.

Hitchcock’s Rebecca‘s shadow is as terrible burden for Wheatley’s film as the original Mrs. de Winter’s was for Max’s new wife. Each comparison shows the overwhelming superiority of the original film. A remake of the works of Hitchcock (one of the greatest geniuses in cinema) oscillates between an impossible mission or a suicide mission.

I do not dislike the work of the cast of the current film: I am a big fan of Kristin Scott Thomas (who makes an impeccable and frightening Mrs. Danvers, with nuances of a pathological passion for her ex-boss and perhaps for her actual boss) and not even the young Lily James (a 31 year old girl who likes challenges – she has done CINDERELLA, WAR AND PEACE and ALL ABOUT EVE, this last one in the theater). Both seem very good in their difficult roles. I really think the director could have given more time to them and their (almost always silent) duel for Manderley’s hegemony. With regard to Californian actor Armie Hammer, it must first be conceded that taking the role of Laurence Olivier was too much for him. The distance between them is abysmal. Several weak jobs (THE LONE RANGER hurts) I found him very well in ON THE BASYS OF SEX, even today his most elaborate work, but his Max de Winter is one of the weaknesses of the new film.

REBECCA brings back the controversy of the remakes. Tribute to the classics or lack of creativity? By the yes, by the no, I think that the great classics should be avoided. The comparison between the new film and the classic almost always leaves the new work with an unbearable liability, like Rebecca’s ghost.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.