ROCCO E SEUS IRMÃOS: As Diferentes Visões de Mundo

O CONVIDADO DE HOJE DO CINEMARCO É GABRIEL MAGADAN.

Os anos sessenta foram fecundos para o cinema italiano. Rocco e seus irmãos, de Luchino Visconti, está entre as obras-primas produzidas. O filme trata de um tema que era presente no pós-guerra, especialmente na Itália. A migração das famílias do campo sulista para as grandes cidades ao norte do país. Muitas delas, movidas pelo ideal de prosperidade, e fugindo da fome e da pobreza, encontravam, ao revés, a dura realidade das desigualdades econômicas e dos inevitáveis conflitos socioculturais.

O filme traz a história da família Parondi, a viúva Rosaria, e seus cinco filhos, Vicenzo, Simone, Rocco, vivido por Alain Delon, Ciro e Luca, que deixam a pequena cidade de Brasilicata e chegam à industrializada Milão. A estrutura da narrativa traz as perspectivas de cada um dos irmãos ao encarar a versão hostil da civilização urbana. A essa altura o paradoxo se torna explícito; no encontro da esperança com a desesperança, irmãs refletidas, e da divisão dos espaços sociais, nos quais vivem o proletário, a classe burguesa, e que cada um procura se inserir, na lógica da transformação, ainda que no final tudo permaneça no imaginário da volta à vida idílica.

É preciso dizer que Visconti fez questão de trazer o problema da dualidade do homem do campo e da vida burguesa das cidades. Foi um filme para contar o drama cultural da Itália meridional, mas também do sujeito, do indivíduo, que se revela na dinâmica psicológica dos personagens. É neorrealismo puro, e confesso. O fascismo terminara, e o mundo do pós-guerra era de sonho e desilusão, em ordem circular. O movimento é de fuga e descoberta, do passado de fome e desesperança, e do renovado desejo de vida melhor; na imagem dos filhos, que, com a mãe, agora vivem em terras cobertas por asfalto, edificada por prédios e acelerada pelo tráfego motorizado.

Além da questão social e econômica, tem-se o conflito entre os irmãos Rocco e Simone, ambos pugilistas, e enamorados da mesma mulher, a prostituta Nadia, personagem de Annie Girardot. Simone é a ovelha desgarrada, furta, se afunda na bebida, e mata, para a aflição de Rocco que carrega a culpa da sua desgraça. Os demais se tornam trabalhadores da indústria, destinados a cumprir o papel social na nova Itália migrante. Vicenzo já em Milão, antes da chegada do restante da família, está noivo de Ginetta, vivida por Claudia Cardinale, também de uma família que vinha da mesma região, ensejando um embate entre as aspirações e vontades de seus parentes. Vicenzo trabalha na fábrica da Alfa Romeo, e assim como Ciro e Luca, vislumbram a vida que aguarda o soar do apito ao final de expediente.

A estética cinematográfica de Visconti, seus personagens, a sfumatura das cenas, por assim dizer, e até a trilha do grandioso Nino Rota, imprimem e expressam a ansiedade de um tempo, de um local, de uma geração. Mas o que torna um filme atemporal, é que o drama transcende os elementos sazonais, regionais e históricos. O que se vê lá nos é comum, é da condição humana, inerente à própria existência. Talvez se possa dizer também que trata da capacidade de se adaptar, e de continuar desejando. Não por acaso, tão atual em nossos dias.

Visconti escreveu sobre o filme e as suas intenções, em manifesto sobre o que entendia estar na raiz da sua dramaticidade. Além do destino dos Malavoglia, é o título, em referência ao romance do escritor siciliano Giovanni Verga e que também o inspirou no filme La terra trema, de 1948.

O texto está no livro Rocco e i suoi fratelli, storia di um capolavoro (Ed. Minimum Fax. 2010). A história da família que vive no sul da Itália, e seus descaminhos e conflitos morais, é recorrente na obra de Visconti; Rocco foi inspirado no conto Il ponte della Ghisolfa, de Giovanni Testori. Visconti discorre sobre as suas agruras, e a respeito da influência gramsciana na sua visão de mundo. Rocco é a sua perspectiva daquele mesmo mundo, e de seu engajamento. Sobre o seu eventual pessimismo, o diretor questiona e responde: “Pessimismo, não. Porque o meu pessimismo é somente o da razão, mas não o da vontade. Quanto mais a razão se serve do pessimismo para escavar até o fundo da verdade da vida, tanto mais a vontade se arma de otimismo, revolucionário”. Razão e desejo, inteligência e emoção, não são excludentes; ao contrário, necessárias. Visconti deixou clara essa perspectiva em seus filmes, o que já é motivo suficiente para revisitá-los.

The sixties were fruitful for Italian cinema. Rocco and his brothers, by Luchino Visconti, are among the masterpieces produced.

The film deals with a theme that was present in the post-war period, especially in Italy. The migration of families from the southern countryside to large cities in the north of the country. Many of them, driven by the ideal of prosperity, and fleeing from hunger and poverty, found, on the contrary, the harsh reality of economic inequalities and the inevitable socio-cultural conflicts.

The film brings the story of the Parondi family, the widow Rosaria, and their five children, Vicenzo, Simone, Rocco(lived by Alain Delon), Ciro and Luca, who leave the small town of Brasilicata and arrive in industrialized Milan.

The structure of the narrative brings the perspectives of each of the brothers when facing the hostile version of urban civilization. At this point, the paradox becomes explicit; in the encounter of hope with hopelessness, reflected sisters, and the division of social spaces, in which the proletarian, the bourgeois class live, and that each one tries to insert himself, in the logic of transformation, even though in the end everything remains in the imagination of back to idyllic life.


It must be said that Visconti made a point of bringing up the problem of the duality of countrymen and bourgeois life in cities. It was a film to tell the cultural drama of southern Italy, but also of the subject, of the individual, which is revealed in the psychological dynamics of the characters. It is pure neorealism, and I confess. Fascism was over, and the postwar world was one of dream and disillusionment, in circular order. The movement is one of escape and discovery, of the past of hunger and hopelessness, and of the renewed desire for a better life; in the image of the children, who, with their mother, now live on land covered with asphalt, built by buildings and accelerated by motorized traffic.


In addition to the social and economic issue, there is the conflict between brothers Rocco and Simone, both boxers, and in love with the same woman, prostitute Nadia, character of Annie Girardot. Simone is the straying sheep, steals, sinks into the drink, and kills, to Rocco’s distress who bears the guilt of his misfortune. The rest become industrial workers, destined to fulfill their social role in the new migrant Italy. Vicenzo already in Milan, before the arrival of the rest of the family, is engaged to Ginetta, lived by Claudia Cardinale, also from a family who came from the same region, giving rise to a clash between the aspirations and wishes of his relatives. Vicenzo works at the Alfa Romeo factory, and like Ciro and Luca, they glimpse the life that awaits the sound of the whistle at the end of the day.


The cinematic aesthetics of Visconti, his characters, the sfumatura of the scenes, so to speak, and even the soundtrack of the great Nino Rota, impress and express the anxiety of a time, of a place, of a generation. But what makes a film timeless is that the drama transcends seasonal, regional and historical elements. What we see there is common to us, it is the human condition, inherent to existence itself. Perhaps it can also be said that it is about the ability to adapt, and to continue to desire. Not by chance, so current in our days.


Visconti wrote about the film and his intentions, in a manifest about what he understood to be at the root of its drama. In addition to the fate of the Malavoglia, it is the title, in reference to the novel by the Sicilian writer Giovanni Verga, which also inspired him in the 1948 film La terra trema. The text is in the book Rocco ei suoi fratelli, storia di um capolavoro (Ed. Minimum Fax. 2010). The history of the family that lives in the south of Italy, and its deviations and moral conflicts, is recurrent in the work of Visconti; Rocco was inspired by Giovanni Testori’s short story Il ponte della Ghisolfa. Visconti talks about his hardships, and about the Gramscian influence on his worldview. Rocco is your perspective on that same world, and your engagement.

Regarding his eventual pessimism, the director asks and answers: “Pessimism, no. Because my pessimism is only that of reason, but not that of will. The more reason uses pessimism to dig deep into the truth of life, the more the will is armed with revolutionary optimism ”.

Reason and desire, intelligence and emotion, are not exclusive; on the contrary, necessary. Visconti made this perspective clear in his films, which is enough reason to revisit them.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.