Meu grande amigo e Procurador do MPRS Juan Carlos Durán me enviou esse belo artigo sobre o filme ODISSÉIA, de Christopher Nolan. Devidamente autorizado por ele, divido com os leitores do CINEMARCO. Gracias, Durán.
Há algo de profundamente borgiano na Odisseia que Nolan se propõe a levar ao cinema.
A viagem de Ulisses talvez seja menos uma aventura pelo mundo do que uma viagem através do tempo, da memória e da própria identidade.
No poema “Odisea, libro vigésimo tercero”, Borges retorna ao momento em que Ulisses já cumpriu sua vingança e reencontra Penélope. O retorno parece consumado: o herói está novamente em seu reino e no leito de sua rainha. Mas é justamente então que Borges introduz a dúvida decisiva: onde está aquele homem que, durante os dias e noites do desterro, errava pelo mundo e dizia que “Nadie” era seu nome? O que voltou a Ítaca é o mesmo homem que partiu?
Essa experiência pode ser aproximada da própria vida de Borges. Em 1921, depois de sete anos na Europa, entre Genebra e a Espanha, ele retornou a Buenos Aires. A cidade que reencontrou já não era simplesmente aquela que havia deixado. E Borges tampouco era o mesmo. A distância havia produzido uma nova maneira de olhar. O retorno foi, de certo modo, uma redescoberta.
É uma experiência profundamente próxima à de Ulisses. Ítaca estava ali, mas o homem que regressava era outro. Buenos Aires também estava ali, mas Borges já não era o adolescente que dela partira. Só depois de se afastar pôde enxergar sua cidade com aquele misto de estranhamento e afeto que estaria na origem de Fervor de Buenos Aires.
Há, portanto, uma curiosa inversão: Ulisses retorna a Ítaca para ser reconhecido; Borges retorna a Buenos Aires para reconhecê-la. Um precisa provar quem é; o outro precisa descobrir onde está.
Essa questão da identidade aparece de forma ainda mais radical em “El inmortal”. O homem que conquista a eternidade descobre que o excesso de tempo pode apagar aquilo que nos torna singulares. Se tudo pode ser vivido, repetido e esquecido, o próprio indivíduo se dissolve. A mortalidade, paradoxalmente, é o que dá forma à identidade e significado ao retorno.
E então surge a cegueira.
A tradição grega imaginou Homero como cego — embora não haja certeza histórica de que tenha sido. Séculos depois, Borges perderia progressivamente a visão e faria da cegueira também uma experiência literária. Em sua conferência “La ceguera”, fala de Homero como o grande exemplo de poeta cego e observa o paradoxo de uma poesia extraordinariamente visual atribuída a um homem que a tradição apresenta como privado da visão.
Dois grandes escritores, separados por quase três milênios, associados à cegueira e unidos por uma extraordinária capacidade de ver através da palavra.
É justamente aí que Homero, Borges e Nolan se encontram. Ulisses atravessa o mundo para voltar a Ítaca; Borges atravessa a Europa para voltar a Buenos Aires; o personagem de El inmortal atravessa os séculos até descobrir que já não sabe quem é; e o próprio Borges, privado da visão, aprende a reencontrar o mundo pela memória.
A Odisseia é, no fundo, uma tentativa de voltar a um lugar que já não existe como o deixamos. Não voltamos para encontrar o passado: voltamos para descobrir o que o passado se tornou dentro de nós.
E talvez seja essa a pergunta que aproxima Ulisses de Borges — e que Nolan, ao filmar Homero, devolve ao nosso próprio tempo: depois de uma longa viagem, o que significa realmente voltar para casa?
Talvez voltar seja, antes de tudo, aprender a ver de novo.